I puritani

I puritani

“I Puritani” é uma ópera em 3 actos de Vincenzo Bellini, a última do Compositor, com libreto do Conde Carlo Pepoli, baseado no drama histórico, igualmente em 3 actos, “Têtes rondes et Cavaliers” de Jacques-François Ancelot e Joseph Xavier Saintine, inspirado em aventuras bélicas ou lendas, ao estilo dos romances históricos de Sir Walter Scott, na época muito em voga. Escrita para o público parisiense, a escolha de Bellini foi inteligente: adaptava uma obra de escritores franceses, com o que lisongeava a um tempo o orgulho francês, e estabelecia uma relação com as novelas históricas do escritor escocês.

Composta em nove meses, entre Abril de 1834 e Janeiro de 1835, o desenho dramático foi sofrendo, ao longo desse período, inúmeras modificações, obrigando o compositor a seguir de perto o trabalho do libretista. Nem por isso o libreto deixa de se mostrar um tanto confuso, mas a música, na qual o Compositor revela o seu lado mais melancólico, é da mais cuidada e bela por ele composta. Muitos consideram “I Puritani” como a sua obra mais metafisica e transcendente. O fraseado, de extrema elegância, que exige dos cantores enorme capacidade vocal, a substituição do recitativo pelo arioso, a orquestração que é a mais ambiciosa de todas as que o compositor destinou à ópera, a par da distribuição em grandes cenas, fazem de “I Puritani” uma obra inovadora, tanto do ponto de vista teatral como do musical.

Numa carta ao conde Carlo Pepoli, Bellini escrevia que a missão da ópera era “fazer chorar, tremer e morrer a cantar”.

A obra narra o drama amoroso de Elvira e Arturo em plena guerra civil entre os puritanos, partidários de Oliver Cromwell, e os realistas, apoiantes dos Stuart.


“São precisos vinte ou mais anos de paz para fazer um homem, e bastam vinte segundos de guerra para o destruir”
Balduino I

A guerra e as suas terríveis consequências são o eixo principal da última ópera de Vicenzo Bellini.

Na minha produção, transfiro a acção dramática para a Primeira Guerra Mundial.

Esta liberdade responde à minha vontade de reforçar a intensidade dramática do texto. No caso de “I Puritani”, o clímax dramático encontra-se na cena de loucura de Elvira, pelo que procurei recrear ao seu redor uma situação o mais adversa e extrema possível, de modo a justificar e a realçar esta reacção. Nas encenações mais tradicionais, a “parte feia” do conflito está sempre oculta, fora de cena. Entre a morte e a destruição, Elvira tenta manter um resquício de esperança no amor. O seu instinto de sobrevivência ajuda-a a superar a visão diária do horror, já que trabalha como enfermeira voluntária assistindo os feridos da frente de combate.

A decisão de transferir a acção para a Primeira Guerra Mundial deve-se a vários factores. Todas as guerras são horríveis, mas esta, em concreto, resultou na perda da inocência e dos ideais heróicos, foi como que a entrada na idade adulta em termos bélicos. Nos conflitos anteriores, a figura do “soldado-herói”, que lutava corpo a corpo, ainda existia. Os desenvolvimentos técnicos e o uso, pela primeira vez, de armas químicas, romperam todos dos códigos de honra, bem como a forma de ver da luta armada. Do corpo a corpo passou-se à busca do extermínio do inimigo o mais rápido e o mais distante possível. O “valoroso” soldado perdeu “valor”.

Por tudo isto, pelo cruel, pelo inumano, pelo simultaneamente próximo e distante do conflito, parece-me uma situação perfeita para situar esta ópera, onde, ao fim e ao cabo, o que conta é que a estupidez humana e os conflitos bélicos, seja qual for o lado e a época, são o que impede Elvira de alcançar a felicidade. O drama de Elvira passa a ser o drama de tantas Elviras anónimas que sofreram e continuam a sofrer os horrores das guerras. A minha encenação é uma homenagem a todas elas e um manifesto anti- belicista. A loucura pode ser uma reacção natural defensiva que permite a evasão de uma realidade insuportável, e, neste caso, serve igualmente para Elvira atirar à cara dos que a rodeiam a mensagem de basta, deixem por um momento os vossos ideais heróicos e deixem-me ser feliz! A sua loucura converte-se numa arma contra o mundo que a rodeia e torna-a, de alguma forma, mais humana, mais real.

Inspirei-me sobretudo em fotografias da Primeira Guerra Mundial. Existe nelas uma “poética” da destruição. Sempre me interessou a “beleza” do caos e do sofrimento. A minha encenação não pretende centrar-se no horror, mas sim na capacidade do amor e da inocência para o superar. Impressionou-se especialmente uma fotografia de uma criança a brincar num baloiço construído com um canhão oxidado. É difícil encontrar uma imagem mais representativa da minha produção.

GUARDA-ROUPA E CENOGRAFIA
O vestuário desta produção é próprio da época e da situação em que decorre. O coro é composto em parte por civis e em parte por soldados ingleses. Nos trajes do coro de civis-povo, dominam as cores escuras, os cinzentos e os ocre. Todos eles têm um aspecto de precariedade e pobreza, normal nas condições lamentáveis em que se encontram. Os soldados vestem uniformes originais da época.

Existe, no primeiro acto, outro grupo do coro, as enfermeiras, vestidas como Elvira. Os solistas vestem uniformes de oficiais ou soldados ingleses.

O cenário representa uma trincheira numa colina, com um perímetro de arame farpado, uma entrada de um búnquer subterrâneo e uma grande quantidade de sacos de areia, usados para defender e reforçar a linha defensiva. Um dos elementos principais é uma escada de caracol isolada num canto do cenário, lugar que serve de refúgio a Elvira e funciona como elemento poético, já que é uma escada que pertencia a um local destruído, e que conduz ao nada, ao abismo. Representa a ânsia de alcançar a felicidade que sempre é negada a Elvira.

Alfonso Romero Mora
 

EQUIPA ARTÍSTICA
Encenador: Alfonso Romero Mora
Cenografia: Corina Krisztian-Klenk
Desenhadora de vesturário: Rosa Garcia Andújar

ELENCO:
Lord Arturo Talbot: tenor
Elvira: soprano de coluratura
Sir Riccardo Forth: barÍtono
Sir Giorgio Valton: baixo
Lord Gualtiero Valton: baixo
Enrichetta di Francia: meio-soprano
Sir Bruno Robertson: tenor

A acção decorre num castelo inglês dos arredores de Plymouth, por volta de 1650.

ACTO I
Sir Riccardo, seguidor de Cromwell e dos Puritanos e Lord Arturo Talbo, cavaleiro realista que defende a causa dos Stuart, estão apaixonados por Elvira, filha do governador da cidadela, Lord Valton. Riccardo expõe ao governador o seu amor e o seu interesse na filha, mas este declina a honra do pedido, porque, sabendo-a apaixonada por Arturo, prevê que ela não corresponde a esta paixão.

Sir Giorgio Valton, irmão de Lord Valton, diz a Elvira que intercedeu por ela junto do pai, e que este concordou com o seu casamento com Arturo. Arturo chega, trazendo vários presentes, entre os quais um belo e fino véu de noiva, que oferece a Elvira.

Durante a sua estada na cidadela de Plymouth, Arturo descobre que Enrichetta di Francia, viúva de Carlos I, está prisoneira na fortaleza, e que o seu destino será semelhante ao do desafortunado rei. Decide por isso libertá-la, servindo-se da sua situação de imunidade na cidadela, mesmo que este acto seja feito à custa do seu próprio amor. Assim, cobre a rainha com o véu branco, fazendo os soldados acreditar que se trata de Elvira. No momento da fuga, surge Ricardo, que quer impedir a saída de Arturo e da que acredita ser Elvira, mas, ao descobrir a verdade, deixa-os passar, na esperança de vir a conquistar Elvira. Esta, quando descobre a fuga, e acreditando que o seu amado a abandonou por outra mulher, enlouquece subitamente.

ACTO II
O Parlamento inglês condena Arturo à morte

Sir Giorgio fala com os seus sobre a loucura de Elvira e lamenta a sua sorte. Elvira canta de modo delirante a sua dor e imagina, com gestos e palavras comovedoras, o dia do seu casamento com Arturo. Sir Giorgio, que intui o papel de Riccardo na fuga de Arturo, suplica-lhe, por Elvira, que interceda para conseguir o perdão de Lord Arturo, e acaba por convencê-lo, mas só no caso de Arturo regressar como amigo – caso contrário será condenado.

ACTO III
Arturo regressa à fortaleza, perseguido e acossado pelos seus inimigos, na esperança de ver Elvira, e ouve-a a cantar uma canção de amor que lhe tinha ensinado. Comovido, canta-a também. Elvira junta-se a ele, e a sua alegria é tão intensa que parece recuperar a razão. Arturo explica-lhe as razões da sua longa ausência, e declara-lhe o seu amor. Com gestos e gritos, Elvira, horrorizada, dá-se conta de que está louca, enquanto soldados puritanos capturam Arturo e o condenam à morte. Ao ouvir a palavra morte, Elvira recupera subitamente a razão. Entretanto, chega um mensageiro com a notícia da vitória de Cromwell e o indulto geral concedido a todos os prisioneiros de guerra. Arturo fica livre e obtém novamente a mão de Elvira, para sempre.


REQUISITOS TÉCNICOS
Medidas ideais do palco: 
Largura 22 m
Profundidade 18 m

A caixa cénica deve estar livre de qualquer elemento, dependurado ou no cenário
Disponibilidade das varas do teatro
A cenografia requere aparafusar e pendurar

TRANSPORTE
Os cenários e vestuário são transportados em 3 TIR de aproximadamente 13m cada
Os cenários e vestuário ocupam aproximadamente 90m3

Mundoclasico

“A nova coprodução que junta os Amigos de la Ópera da Corunha e a Ópera de Darmstardt, e tem a assinatura de Alfonso Romero, situa a acção numa trincheira durante a primeira Guerra Mundial, sobre uma cenografia única, funcional e atractiva, assinada por Corina Krisztian-Klenk, com o apoio de uma iluminação francamente soberba e expressiva de  David P. Merino e Santiago Mañasco…”(…) “… visualmente é atractiva, e a ideia não está de todo mal pensada, com vários momentos muito conseguidos -  o regresso de Arturo da guerra em  ‘A te o cara’, que longe de voltar como um herói aparece sujo, ferido e extenuado, ou o momento em que Elvira perde a razão e atira ao chão o altar improvisado,  e coloca depois mais tarde a cruz novamente de  pé…”(…) “Talvez o mais interessante desta revisão seja a solução final, prescindindo do happy-end original: aqui Elvira nunca chega a recuperar a razão, e, com a cena congelada e manchada por uma luz violeta, imagina o indulto de Arturo, segundos antes de ambos morrerem fuzilados, abraçados. Uma solução muito acertada, que dá alguma coerência à história”.

Hugo Alvarez Domínguez , Mundoclasico, 16 de Dezembro de 2009